Esta semana vou iniciar o Mestrado em Estudos de Teatro na Faculdade de Letras da Universidade de lisboa. Os motivos? Aqui ficam:
O teatro fez, desde sempre, parte da minha vida. O meu pai é actor e encenador, e a minha mãe, conjugando com a sua profissão de jornalista, foi também actriz durante a minha fase de bebé e criança, no há muito extinto Adóque, assim como na Cooperativa de Comediantes Rafael de Oliveira, pelo que a minha infância, embora maioritariamente passada em casa da minha avó materna, teve este lado pouco convencional de acompanhar frequentemente os meus pais aos espectáculos. Ainda hoje guardo o mimo e a adoração que esses grupos de pessoas tinham para comigo nos bastidores. Mas sobretudo guardo o fascínio por esta forma de arte.
E isso foi o que de mais importante ficou e ficará para sempre.
Enquanto criança tive a sorte de ser multifacetada. Gostava de cantar, dançar e representar (embora fosse muito tímida), e a minha escrita começou a ser elogiada desde cedo pelos professores. Nessa altura, dizia que queria ser jornalista como a minha mãe (ou médica, quando dava jeito ser menos irreverente...). Destaquei-me, também, desde muito cedo, no desenho, pelo que chegada a hora de fazer escolhas escolares, confesso que perdi muitas horas de sono. Principalmente porque, como pessoa responsável e perfeccionista que sempre fui, tinha medo de escolher o caminho errado.
Mas se ouvirmos a intuição, teremos sempre a ganhar, e ao enveredar pela área das artes sei que fiz a escolha correcta.
Comecei a desenvolver uma enorme paixão pelo design de moda (área em que sou licenciada), embora deva confessar que me senti um pouco desiludida com o curso em si. Talvez porque seguir tendências e ver desfilar manequins em passarelas convencionais não fosse bem aquilo que me estimulava o cérebro. Sonhava em fazer apresentações de moda alternativas, em espaços menos convencionais, e as minhas colecções foram muitas vezes exploradas em termos de tecnologia de materiais, porque penso que se esse exercício não for feito na faculdade, não será certamente na nossa vida profissional. E digo-o com conhecimento de causa, uma vez que lancei a minha marca de vestuário (a Bmounti) no início deste ano e, agora sim, para manter receitas razoáveis, preciso de seguir uma série de imposições da indústria da moda.
Enquanto estava a estudar, e porque sempre fiz questão de trabalhar em part-time de forma a ser semi-independente, surgiu um convite para mim totalmente inesperado: ser a figurinista daquela que seria a próxima encenação do meu pai, o espectáculo “Jantar de idiotas”. E devo dizer que desde então percebi que não passo sem o teatro e o mundo do espectáculo. O início foi muito difícil porque a inexperiência faz-nos cometer muitos erros (felizmente, todos eles de possível resolução), mas haverá outra maneira de crescermos que não essa?
A esta peça seguiram-se muitos outros espectáculos e finalmente a moda ganhou um outro sentido: o figurino tinha uma história, uma provocação lançada pela dramaturgia, fazia parte de um todo, tinha um público que a admirava e a quem tocava. Foram surgindo exercícios uns atrás dos outros, aos quais eu tinha e tenho de responder da forma mais eficaz possível. Há espectáculos menos condicionantes do que outros, mas isso é apenas um pormenor, porque em todas as circunstâncias é possível fazer bons trabalhos. No palco tudo é permitido desde que funcione como resposta ao exercício.
Outra descoberta especialmente estimulante foi aprender o que é trabalhar verdadeiramente em equipa. Que uns sem os outros não somos nada, e que se todos disponibilizarmos tempo e vontade em prol de um bom espectáculo, será mais gratificante o resultado final. Foi assim que aprendi a trabalhar com o encenador, cenógrafo e engenheiro de luz como um todo. E, ainda, a ouvir os actores, o que implica muito tempo a acompanhar ensaios mas que, do meu ponto de vista, é determinante para concretizar um bom projecto.
Não concorri a este mestrado com o intuito de acumular “canudos”. Isso não faz o meu género... Fi-lo, antes, porque sou uma estudiosa-nata e, não pretendendo aprofundar mais os estudos na área da moda, esta foi a opção que achei poder deixar.me mais rica e motivada.
Este mestrado permitir-me-á (ao que espero) assimilar e aprofundar toda uma série de conhecimentos e será uma forma de, trabalhando eu simultaneamente na área da moda como designer, mas igualmente como figurinista, complementar estes meus dois mundos e pólos de interesse.
Inscrevi-me plenamente convicta do que quero, e movida pela confiança que deposito neste mestrado e nos desafios que terão, certamente, para me colocar.
E agora que o estudo comece...